Ajuste de projeções, críticas e disparada dos DIs: as consequências das falas de Campos Neto antes do Copom


Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central
Germano Lüders/InfoMoney

SÃO PAULO – O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, surpreendeu o mercado nesta terça-feira (14) ao afirmar que a taxa básica de juros, Selic, seria usada no combate à inflação, mas com ressalvas.

“Vamos levar a Selic aonde precisar, mas não vamos reagir sempre a dados de alta frequência”, disse o chairman. A declaração, última antes da próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), causou divergência entre os analistas, uma disparada nos juros futuros e uma revisão de expectativas para o ciclo de aperto monetário.

Segundo João Beck, economista e sócio da BRA, o mercado interpretou o que foi dito por Campos Neto como uma sinalização de que na reunião do Copom que ocorre nos dias 20 e 21 de setembro a taxa de juros será elevada na mesma magnitude que na anterior, ou seja, um ponto percentual.

criticou a sinalização de Campos Neto. “Ficamos preocupados porque achamos que a decisão do BC foi antecipada em um evento fechado. Isso é grave e insere ruídos importantes na comunicação”, diz Padovani.

“Estamos reavaliando a projeção de alta de 1,25 ponto porcentual da Selic em setembro. Houve uma informação importante em um evento fechado, e aí dificulta muito a previsibilidade da próxima decisão do Copom.”

Na mesma linha, o sócio fundador da gestora Kapitalo, Carlos Leonhard Woelz, foi outro que criticou as declarações de Campos Neto. Para ele, a fala foi um “banho de água fria” e pode ser “um tiro no pé”.

Até agora, ressalta Woelz, o BC fez política monetária de tentar conter as expectativas inflacionárias dando respostas de curto prazo. “O BC errava no passado ao ser muito gradualista”, disse em evento da Eleven. O cenário para a inflação, afirmou Woelz, piorou muito nos últimos meses. “Está correndo o risco de perder um pouco o controle das expectativas e o mercado ir para cima deles.”

A maneira como o BC está fazendo a mudança de tom mostra que a instituição “quer errar para baixo”, elevando os juros de forma mais lenta. Se o BC alongar o horizonte de política monetária vai ser terrível, afirmou o gestor, pois não se sabe agora nem quem será o próximo presidente do Brasil. “O mercado pode interpretar isso como uma maneira de você fugir da responsabilidade de combater a inflação do ano que vem.”

“Foi um tiro no pé enorme”, disse Woelz, destacando que o BC está mostrando pouca disposição de colocar os juros de forma mais rápida no nível que a taxa básica deveria estar. “Parece que é um Banco Central que se for errar, vai errar para baixo, mas não para cima.”

O gestor disse que vai esperar a próxima reunião do Copom para ver se há mais informações da nova estratégia ou se não foi um erro de comunicação de Campos Neto, que está quebrando a estratégia feita até agora em direção a um maior gradualismo. “Não digeri ainda.”

A Ativa Investimentos, por sua vez, acredita em alta de 1,25 ponto porcentual da taxa Selic em setembro, mesmo com a sinalização do BC.

Para o economista-chefe da Ativa, Étore Sanchez, a declaração de Campos Neto visou conter os danos de precificações mais esticadas nos juros curtos. “Mas não podemos ser negligentes com o avanço das expectativas de inflação para 2022. Elas ficaram praticamente insensíveis à austeridade do BC. Não é só mais uma oscilação ou surpresa. São fatores conjuntos que ensejam por uma aceleração na restrição de política monetária”, afirma Sanchez, que projeta Selic a 8,50% no fim do ciclo.

Também a MB Associados espera um aumento de 1,25 ponto porcentual da taxa Selic em setembro, apesar da fala de Campos Neto. “Com uma inflação de 10% e com todos os riscos pela frente, sinalizar esse cenário é complicado. Não me parece que os modelos do BC vão indicar um quadro tranquilo para a inflação. O presidente fala isso agora, mas não necessariamente vai acontecer”, analisa o economista-chefe da MB, Sergio Vale.

Para o economista, a sinalização de uma alta de juros mais lenta pode dificultar o controle das expectativas para o IPCA de 2022, além de atrasar a reaceleração do crescimento. “O aumento de 1 ponto é possível, mas não deveria ser o caso. A avaliação conjuntural está virando unanimidade, com todo mundo revisando câmbio, inflação e Selic para cima. O BC dá um tom mais suave do que deveria”, diz Vale.

Mesmo antes das falas de Campos Neto, XP, Citi e Itaú haviam revisado projeções para o patamar da Selic no final do ciclo de aperto de juros.

O economista-chefe da XP, Caio Megale, destaca que a Selic deve ser elevada até 8,5% ao ano para combater o avanço mais disseminado da inflação registrado no último IPCA.

Já o Citi entende que o BC levará a taxa de juros até 8,75% no fim deste ano.

O Itaú, por fim, acredita em mais três aumentos consecutivos de um ponto percentual e um último de 0,75 p.p., levando a Selic a 9% ao ano em 2022.

(Com Agência Estado)

Conheça o plano de ação da XP para você transformar os desafios de 2022 em oportunidades de investimento.



Source link