Quando a raiva impulsiona funcionários a largar seus empregos | Concursos e Emprego


Estava um calor sufocante dentro da casa noturna onde Alexander trabalhava como DJ, no Estado norte-americano da Virgínia. Mesmo com temperatura de mais de 40 °C no lado externo, o ar-condicionado da casa estava quebrado. A sensação de calor e umidade era ainda maior porque a casa estava promovendo um evento espacial – uma festa de espuma que tinha Pokémon como tema -, e mais de 400 participantes estavam se divertindo com as bolhas.

“Eu literalmente tinha compressas de gelo no pescoço para não desmaiar”, relembra Alexander, agora com 35 anos, sobre o evento de 2016. O calor também estava prejudicando o seu equipamento e ele decidiu dar um basta. Alexander pegou o microfone para que todos pudessem ouvir e repreendeu o dono da casa noturna por mentir sobre o conserto do ar-condicionado e pelas condições que estavam fritando seu equipamento. “Chega”, disse ele, e saiu correndo.

Muitos de nós imaginamos abandonar um emprego ruim dessa forma tão dramática. Mesmo sem envolver ataques de temperamento, a “demissão por raiva” é um sinal de falhas sérias no local de trabalho: desde descuidos nos padrões de saúde e segurança até a exploração nas condições de trabalho e gerentes abusivos.

A pandemia de Covid-19 acabou por intensificar os fatores de tensão que podem levar funcionários a demitir-se de repente. Mas, como a “demissão por raiva” tende a ser o ápice de uma série de problemas no trabalho, os empregadores podem evitar o abandono de funcionários prestando atenção nos sinais de advertência – antes que algum empregado jogue o microfone no chão, a caminho da saída.

O que é a “demissão por raiva”

A ideia de sair com raiva de um emprego surgiu muito antes do fenômeno começar a ser celebrado na cultura pop, como no clássico da música country dos anos 1970 Take this job and shove it; e antes dos gamers começarem a usar a expressão “rage quitting” (desistência por raiva) na década de 1980 para designar o abandono furioso de um jogo frustrante.

Embora a “demissão por raiva” possa parecer impulsiva, a insatisfação com o trabalho tende a acumular-se ao longo do tempo, até que um incidente isolado deflagre a demissão real. E ter um espaço seguro para onde ir – como grande quantidade de opções de trabalho, outra fonte de renda (como o seguro-desemprego) ou uma oportunidade em vista (como uma formação escolar) – pode fazer com que seja mais fácil puxar o gatilho.

Esses padrões existem de alguma forma em todos os cargos e indústrias, mas assumem formas diferentes em diferentes contextos. Não existem estatísticas sobre as demissões por raiva, mas Peter Hom, especialista em recolocação profissional da Universidade do Estado do Arizona, nos Estados Unidos, indica que, na Alemanha, por exemplo, funcionários de grandes empresas são penalizados se pedirem demissão sem aviso prévio. Já os Estados Unidos têm mais liberdade de emprego, o que justificaria que a “demissão por raiva” fosse mais comum naquele país.

A “demissão por raiva” geralmente é o ápice de uma série de tensões e não uma explosão isolada — Foto: Getty Images/BBC

Sajeet Pradhan, pesquisador do comportamento empresarial do Instituto Indiano de Administração Tiruchirappalli, afirma que, em comparação com os Estados Unidos e a Europa, a Índia “culturalmente é mais tolerante (infelizmente) ao abuso no trabalho”, devido à “distância do poder ou à educação que nos condicionou a respeitar pessoas em posições de autoridade”. Na Índia, segundo Pradhan, “a ‘demissão por raiva’ geralmente acontece nos cargos de alta especialização e entre os millennials”.

Geralmente – segundo Nita Chhinzer, pesquisadora de administração estratégica de recursos humanos da Universidade de Guelph, no Canadá – “as pessoas com maior formação são mais propensas a demitir-se porque elas acreditam que seus conhecimentos podem ser aplicados e transferidos com mais facilidade”.

Mas pessoas em empregos precários ou menos especializados podem muitas vezes demitir-se com curto aviso prévio. Peter Hom destaca pessoas que trabalham nas fábricas voltadas à exportação na China e no México: “é como um jogo das cadeiras – elas pulam de um emprego para outro”.

E, embora os trabalhadores jovens às vezes sejam considerados inconstantes, “na verdade, antes que o seu custo seja irrecuperável devido a um investimento perdido na organização, eles tomam a decisão que for melhor para eles”, agrega Chhinzer. Faz sentido que eles abandonem um emprego inadequado de forma mais espontânea.

Isso não significa que deixar o trabalho no calor do momento seja sempre algo lógico. Chhinzer afirma que, “com a ‘demissão por raiva’, na verdade, eles não estão deixando de tomar decisões racionais, mas estão apenas pensando em quais são as suas opções”. Funcionários saturados poderão superestimar sua capacidade de conseguir outro emprego.

O que está por trás da “demissão por raiva”

Embora haja muitas razões para abandonar um emprego insatisfatório, existem certos padrões recorrentes que geram demissões espontâneas.

Uma das razões mais comuns é a má gestão. A supervisão abusiva pode gerar exaustão emocional. Quando os gerentes deixam de atender às repetidas preocupações dos funcionários, o resultado explosivo pode ser a demissão desses funcionários por raiva. A má gestão muitas vezes está relacionada a outras razões das “demissões por raiva”, como mudanças constantes de projetos, cronogramas rigorosos, sobrecarga de trabalho e rejeição de preocupações com segurança.

Sarah sofreu tudo isso em um recente período de três meses como caixa em uma pequena mercearia de Michigan, nos Estados Unidos. A jovem de 24 anos havia se mudado com seus pais e pretendia trabalhar temporariamente, e apenas em meio período, enquanto se preparava para cursar graduação em Toronto, no Canadá, mas o pequeno quadro de funcionários e fortes exigências da gerência logo fizeram com que ela trabalhasse em tempo integral.

Era também claro que a segurança dos funcionários não era prioridade. Sendo a única mulher jovem na empresa, Sarah se sentia insegura de muitas formas: clientes embriagados que às vezes eram beligerantes, a maioria das pessoas se recusava a usar máscaras e frequentemente ela era a única funcionária na loja.

Sentir-se inseguro no local de trabalho – por qualquer motivo – é um motivador poderoso para demissões repentinas — Foto: Getty Images/BBC

O golpe final ocorreu quando um cliente começou a persegui-la. Sarah pediu à sua gerente que mudasse a escala dos funcionários, da sua posição pública na loja, onde qualquer cliente poderia ver quando ela estivesse trabalhando, para um espaço privado. A gerente não apenas recusou, mas também gritou com Sarah por mencionar o perseguidor. “Minha chefe imediatamente se exaltou. Ela dizia: ‘Você precisa ser adulta. Por que você não é adulta com relação a isso?’ Ela repetiu isso muitas vezes”, afirma Sarah.

Sarah pediu demissão naquele mesmo telefonema, um mês antes do final do trabalho. “Eu me senti muito mal porque realmente queria dar duas semanas [de aviso prévio]… mas, quanto mais eu pensava sobre isso e como ela fez tão pouco para me ajudar e trabalhar com aquela situação, mais eu achava que aquilo não valia meu tempo, nem minha segurança”, conta ela.

Embora tenha ficado abalada depois da demissão por raiva, ela não ficou em grandes dificuldades financeiras. “Tenho certeza de que, se fosse o emprego dos meus sonhos, eu teria tomado decisões diferentes”, analisa Sarah. Ela diz que seria menos provável que se demitisse espontaneamente “se aquele fosse um emprego que já me valorizasse… se fosse um emprego que eu realmente sentisse como uma carreira”.

No caso das pessoas que se demitem por raiva, o mau tratamento de uma parte alimenta o mau tratamento pela outra. Depois que a gerente deixou de levar sua segurança em consideração, Sarah decidiu não cumprir aviso prévio.

Nita Chhinzer faz referência à teoria das trocas sociais: “a forma como você me trata determina a forma como eu trato você”. Se um gerente alterar cronogramas no último minuto, insistindo que os funcionários façam horas extras ou recusando-se a permitir licença por luto, os funcionários são também mais propensos a retribuir com limitações de comunicação e falta de aviso prévio.

Algumas dessas pressões sobre os funcionários foram potencializadas pela pandemia. Chhinzer afirma que, em 2020, as taxas de pedidos de demissão, de forma geral, caíram, já que as pessoas permaneceram em seus empregos o máximo que conseguiram. Mas as demissões aumentaram muito em 2021, de forma que “os gestores, as organizações e os departamentos de RH estão muito preocupados com a manutenção dos talentos”.

Mas, como mostra a experiência de Sarah, essa preocupação nem sempre se traduz em melhor proteção dos empregados, particularmente em cargos com baixos salários.

De fato, a segurança tem sido um catalisador frequente para que funcionários que atendem clientes pessoalmente se demitam por raiva. Uma enfermeira cujos colegas espalhavam informações falsas sobre vacinas; um funcionário de restaurante cujos gerentes escondiam a informação de que a Covid vinha se espalhando entre os funcionários; ou uma vendedora com receio de transmitir o vírus para parentes vulneráveis – todos deixaram seus empregos de forma quase repentina durante a pandemia.

Os pesquisadores já estavam investigando a “consciência da morte no trabalho” antes da pandemia. Mas a Covid-19 trouxe outra dimensão para essa ansiedade no local de trabalho. Para os que se demitiam por raiva, especialmente os que possuíam alta “ansiedade da morte”, o componente “raiva” “pode ser acionado mais provavelmente pelo fato de que os empregadores deixam de fornecer medidas de segurança suficientes para proteger a saúde dos seus funcionários”, afirma Rui (Hammer) Zhong, estudante de PhD da Universidade da Colúmbia Britânica, no Canadá, que pesquisa o lado negativo dos locais de trabalho (essa reação de raiva inflamada opõe-se à outra forma de consciência da morte pesquisada por Zhong e seus colegas – uma reflexão da morte, ou “demissão calma”, ao perceber como a vida é curta).

Chefes devem ficar atentos a sinais e intervir antes que as tensões se agravem, se não quiserem que seus funcionários se demitam — Foto: Getty Images/BBC

Nita Chhinzer comenta que “as pessoas estão saindo [de seus empregos] não apenas devido ao mau tratamento no trabalho pelos gerentes e colegas; elas também estão saindo devido à situação nos seus empregos”, como a necessidade de retornar ao local de trabalho. “Isso não era preocupação anteriormente”, segundo ela.

Alternativas para a “demissão por raiva”

Para alguém tentado a demitir-se por raiva, pode ser útil obter uma perspectiva sobre o que existe atrás da raiva, além da gratificação imediata de esfregar isso em um mau chefe.

Também é útil analisar por que outras pessoas não se demitem por raiva. Histórias de funcionários sobrecarregados que desrespeitam seus maus chefes são gratificantes e, às vezes, inspiradoras. Mas é claro que é alarmante pedir demissão sem um plano B.

Alexander teve a sorte de não depender do seu trabalho como DJ, pois o seu emprego principal era como cientista. Ele observa que “teria sido realmente mais difícil abandonar o trabalho se eu não tivesse outro emprego”. E nem todos têm condições de deixar um emprego desmotivador, ou de sair sem o pagamento da rescisão. Por isso, nem sempre é útil que as pessoas que fizeram isso incentivem os demais a sair imediatamente de um mau emprego.

Alibel encontra essa situação com frequência entre seus compatriotas, migrantes venezuelanos na Argentina, que nem sempre contam com situação legal ou financeira para mudar facilmente de emprego.

Quando ela chegou a Buenos Aires, em 2019, seu primeiro emprego foi vendendo carros por telefone. Não levou muito tempo para que ela compreendesse que era uma operação ilegal e Alibel, agora com 28 anos de idade, pediu demissão rapidamente. Ela não perdeu nenhum pagamento porque o emprego era totalmente comissionado: “se você não vendesse nada, não ganharia um centavo”, ela conta. Mas, embora haja muitos relatos de pessoas que se demitem por raiva de outros empregos questionáveis, nem todos têm condições de assumir sua posição moral.

De forma geral, o estigma da demissão pode estar diminuindo devido à Grande Renúncia (nome dado à tendência que levou um grande número de trabalhadores norte-americanos a deixar seus empregos durante a pandemia de Covid-19), embora a saída de alguns funcionários com planos B possa tornar a situação mais difícil para os colegas que ficam para trás. Mas, em última análise, é papel dos empregadores melhorar as condições de trabalho. “Se os empregadores oferecerem salários decentes e bons benefícios, eles inibirão as demissões”, afirma Peter Hom.

Nita Chhinzer destaca que, entre as organizações concentradas em manter seus funcionários, é útil ser proativo, por exemplo, com apresentações semanais, benefícios como auxílio-educação ou sextas-feiras de folga no verão. Peter Hom e seus colegas recomendam que os empregadores prestem mais atenção aos “comportamentos pré-demissão”, com a implementação, por exemplo, de entrevistas de permanência com os funcionários atuais (e não apenas entrevistas de saída com empregados demissionários).

O fato de um funcionário demitir-se por raiva deveria ser um chamado de alerta para o empregador.

Seis meses depois de Alexander sair da casa noturna superaquecida com seu equipamento de DJ, ele se reconciliou com o proprietário e voltou a trabalhar lá. Mas, no ano seguinte, ele largou tudo de novo, depois de novas promessas não cumpridas e condições de trabalho sem segurança. “Foi a última vez em que atuei como DJ fora da minha própria casa. Simplesmente me cansei de tudo aquilo”, conta ele.



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